quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Descarrego - Aline C. Costa



Certa vez ouvi de um psicólogo que escrever faz bem para a mente e esvazia o coração da dor. É certo que não acreditei, mas em vias de tanta dor, não vejo outra saída a não ser em me apoiar nas coisas que me são ditas. Estou aqui, perante um computador, que não me ouve, não me diz, não me sente, tentando em vão digitar alguma palavra que consiga exprimir e espremer, se assim desejar algumas palavras que transmitam todo o meu sentimento.
Sinto o meu coração vazio. Esta primeira frase meio perdida e sem nexo, talvez lhe pareça um tanto quando esporádica ou até mesmo fugidia, mas meu peito que outrora transbordava ansiedade e vontade, hoje está oco , desesperanço e com um medo infindável. Lembro-me de falar muitas vezes não saber das dores dos outros, por não ter passado por algo parecido ou por não ter perdido alguém próximo, era fácil lidar com o sentimento de morte, quando a ceifadora não está à espreita, esperando que seu amado pai desfaleça, essa sensação de morte é algo inexplicável e de certa maneira nos deixa sem caminho, sem alicerce.
Acreditava que minha fé voltaria, mas tristemente percebo que estou afastando - me cada vez mais do resquício que em mim sobrara. Pensava em minha vã filosofia que Deus repousaria em meu peito e afagaria minha cabeça, retirando a dor do meu peito. Mas o que obtive foi à prova daquilo que afirmava sem querer afirmar “Deus não interfere nas desgraças do mundo, Ele não ficará ao teu lado quando precisares de uma mão amiga”.
Hoje experimento o vazio existencial, aquele que recusei, ignorei, por haver em mim esperança de um mundo melhor, com pessoas melhores. Mas quando sentes a dor da perda, percebe a finitude da vida e o quanto ela não fará diferença nesse mundo auto-sustentável. Não somos nada! Nunca seremos nada! O que te faz humano? O que te faz sentir melhor que os outros habitantes do planeta? Apenas um lampejo de consciência de si, que perderas com a morte, que é a única certeza da vida.
Minha dor não está desaparecendo quando preencho essa página de lágrima e sangue, meu vazio não está se entupindo de significado nestas palavras que não conseguem demonstrar nem um milímetro do que se passa em minha mente, em meu coração. Queria que fosse diferente, sofro por não poder mudar essa cruel realidade humana, não quero que a morte bata em minha porta e leve consigo meu amor, meu genitor, aquele que me ensinou a assobiar, a fazer massa, tijolos, pregar pregos e soltar pipas. Não acredito na perenidade da vida, não creio nos laços paternais pós-morte, e sofro por saber que te perderei, e que quando nos encontrarmos no plano espiritual, se é que nos encontraremos, não serás mais meu pai e eu não serei mais tua filha.

Um comentário:

Dulce disse...

Aline,
Esse é um momento terrível pelo qual, infelizmente, todos temos que passar um dia. Já tive tantas perdas, tantas... Meu pais, meus irmãos, meu marido, tios, primos, amigos queridos...Só o tempo consegue ir mitigando cada dor, amenizando cada sofrimento, secando cada lágrima, transformando tudo em doce saudade... É preciso muita força, coragem, e tentar manter a serenidade... Um grande abraço...