domingo, 15 de fevereiro de 2009

Cálice - Chico Buarque de Holanda

O Filho da Velha - Zeca Baleiro

Livro Pelas Ruas da Cidade - Dulce M. Godinho Pereira




O livro:

Recebi um telefonema feliz, fiquei surpresa porque nos últimos meses não tenho me sentido bem, não tenho me reconhecido como ser criadora, que muitos acham que sou. Peguei o telefone e ouvi uma voz ao longe, dizendo alegremente que o livro estava pronto. A voz estava extasiada de tanto preenchimento de si. Fiquei feliz, minha amiga conseguira mais uma vez colocar no papel seus pensamentos muitas vezes abstratos. Porque mulher também consegue ser abstrata. Ela com aquela voz doce e a meiguice que lhe é companheira de longa data, pediu que eu fosse à sua casa buscar alguns exemplares do fruto de longas horas de trabalho, eu por minha vez estava curiosíssima por ver a capa, que fora criação minha, uma experimentação que dera certo. Uma brincadeira com minha fotografia que dera resultados. O espírito criador muitas vezes está nas coisas simples, nos feitos simples e cotidianos da vida. Uma foto de relance, uma sacada, não é preciso muito esforço para ser criativo, não é necessário ser genioso para ser gênio. Não pensei em hora nenhuma cortar minha orelha e dar de presente para um amigo, nem afetar minha visão com pequenos pontinhos em uma tela, não que isso não tenha passado pela minha mente, mas não seria novidade. Pronto eis que ai está o LIVRO, com sua leitura doce, minuciosa que te faz percorrer pelas ruas de Juiz de Fora como um todo, e não como mero espectador.


"Quer adquirir um exemplar? Quer se aventurar pelas ruas de Juiz de Fora?
Dê uma passadinha pelo blog:

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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Livro Marília de Dirceu - Tomás Antônio Gonzaga


Marília de Dirceu é o título da obra poética máxima de Tomás Antônio Gonzaga, integrante do Arcadismo.
Manuel Bandeira, analisando a obra-prima, registra que "nenhum poema, a não ser Os Lusíadas, tem tido tão numerosas edições". Sua importância na literatura de língua portuguesa é, portanto, basilar.
Publicado em Lisboa, em 1792, ano em que Gonzaga partira para o exílio em Moçambique, relata seu amor por uma brasileira: Maria Dorotéa Joaquina de Seixas, de quem fora noivo e termina por esquecer, casando-se em sua nova pátria africana.
Informa José Marques da Cruz, no seu "História da Literatura", que este era
"o livro de cabeceira do grande lírico português João de Deus" e que este poema são "versos amorosos, de uma ternura comovida, em descantes graciosos, à sua namorada Marília, tão cheios de sentimento que Romero diz ser ele "o mais afamado dos poetas mineiros" e Pereira da Silva "que os seus versos rivalizam com as mais belas canções de Petrarca". O que caracteriza os seus versos é a simplicidade, a espontaneidade tão natural, que parece prosa fluida e cantante."
Já José Veríssimo em "A Literatura Brasileira", ressalta a obra em seu contexto histórico:
"O Uraguai, de Basílio da Gama, o Caramuru, de Durão, os Sonetos e outras obras de Cláudio da Costa, a Marília de Dirceu, de Gonzaga, os Poemas, de Alvarenga Peixoto e de Silva Alvarenga, são sem dúvida os primores da nossa literatura colonial e contam-se ainda entre as obras-primas da nossa poesia. Estes poetas estabelecem a transição desta literatura ainda em suma portuguesa para aquela a que já podemos sem impropriedade chamar de brasileira." (grifos feitos aqui)
O historiador Pedro Calmon ressalta o aspecto árcade, bem como a visão lusitana de Gonzaga (in: História da Civilização Brasileira, 1937), asseverando que o mesmo não tinha ainda o ideal nativista que verificou-se no pós-1822/23:
"Superior às escolas, não fora destas, "Marília" é o canto pastoral em que a delicadeza do cantor vesta a túnica de Alceste e a sua candura revive Cítara.1 A despeito desse abuso da mitologia, os seus versos ganham uma popularidade que só os de Casimiro de Abreu lhe disputariam tantos anos depois, e induzem à imitação os outros poetas, até à Independência."
(Nota 1): Gonzaga, sobretudo subjetivo, não manifestou nenhuma emoção nativista na sua lira, se se excetuar a VII do livro 2º. Na XXIX concita Marília a deixar o "turvo ribeirão" em que nasceu e "as já lavradas serras" (Minas) para passar ao "claro Tejo".
Como obra anterior ao romantismo tem caracteres nitidamente árcades, embora já se vejam alguns elementos da escola futura, tais como a idealização do objeto amado. A forma é uma preocupação constante.
Estrutura: O poema é dividido em 3 partes. A primeira, com 33 "liras", com refrões guardando certa similitude entre si. A segunda, de 38 liras, possivelmente escrita na prisão, revela um teor menos referente à amada e, por fim, a terceira e última, com 9 liras e 13 sonetos.


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Poema para uma mulher que passa - Anibal Raposo

Podias ser Lianor
Pois que caminhas formosa
Pela verdura descalça.

E garota de Ipanema
Já que tu és coisa linda
Tão linda e cheia de graça.

Ou Rosinha dos limões
Fada de olhar feiticeiro
Com esse ar de chalaça.

Mas por não saber, princesa,
Que nome te baptizou
Prefiro dizer, riqueza,
Como o poeta cantou:
Passou uma delicadeza,
Uma mulher que ficou.


Ponta Delgada, 2009-02-05
Aníbal Raposo

Amanhã não te darei Fores - Anibal Raposo



Amanhã,
por ser banal,
não te darei flores.

Convidar-te-ei, tão somente,
para um lugar tranquilo à beira-mar
e dar-te-ei um longo e húmido beijo.

Em seguida,
far-te-ei erguer comigo
uma taça de bom vinho
e brindarei à rosa das rosas,

à mais delicada que conheço:
tu, meu amor.

Ponta Delgada, 2009-02-13
Aníbal Raposo

Prosinha de Improviso. Aline C. Costa


Livro Rubem Fonseca – Contos Reunidos, Editora Cia. das Letras.

“Há vinte anos que eles não se falavam, morando na mesma casa”, o silêncio pairava mudo por dentre os corredores escuros do palacete morto e frio. Seus olhos se encontravam em lampejos de raiva e ódio. Como pude entregar-te a juventude? Pensava Amanda. Hoje com 40 anos ostentava em seu rosto o semblante de senhora, João, seu marido, 15 anos mais velho, vivia em plena forma e vitalidade. Aquele homem sugara todo o néctar daquela flor pura, deixando um caule seco e morto.
Os cômodos do casarão cheiravam a mofo e degradação, Amanda não pudera dar-lhe filhos, e convivia com seu colo seco, em sua cama seca. Toda a sua existência vivera em prol daquele homem, que hoje se esgueirava de sua presença com medo de contagiar-se com tamanha dor.
Aquele homem a olhava de relance, pensava o que havia acontecido com o amor, se é que houve amor. Os soluços eram os únicos ruídos que sufocavam o silencio e o pesar do ar parado.
Não havia esperança, não existia saída. De longe, ouviu-se apenas o som estrondoso a rebentar o ar do salão, João correu ao encontro da mulher, que estrebuchava ao chão em meio aos miolos feito um porco abatido, frio, sujo e morto.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Livro História da Literatura Brasileira - José Veríssimo



Introdução

A literatura que se escreve no Brasil é já a expressão de um pensamento e sentimento que se não confundem mais com o português, e em forma que, apesar da comunidade da língua, não é mais inteiramente portuguesa. É isto absolutamente certo desde o Romantismo, que foi a nossa emancipação literária, seguindo-se naturalmente à nossa independência política. Mas o sentimento que o promoveu e princi- palmente o distinguiu, o espírito nativista primeiro e o nacionalista depois, esse se veio formando desde as nossas primeiras manifestações literárias, sem que a vassalagem ao pensamento e ao espírito português lograsse jamais abafá-lo. É exatamente essa persistência no tempo e no espaço de tal sentimento, manifestado literariamente, que dá à nossa literatura a unidade e lhe justifica a autonomia.
A nossa literatura colonial manteve aqui tão viva quanto lhe era possível a tradição literária portuguesa. Submissa a esta e repetindo-lhe as manifestações, embora sem nenhuma excelência e antes inferiormente, animou-a todavia desde o princípio o nativo sentimento de apego à terra e afeto às suas cousas. Ainda sem propósito acabaria este sentimento por determinar manifestações literárias que em estilo diverso do da metrópole viessem a exprimir um gênio nacional que paulatinamente se diferençava.
Necessariamente nasceu e desenvolveu-se a literatura no Brasil como rebento da portuguesa e seu reflexo. Nenhuma outra apreciável influência espiritual experimentou no período da sua formação, que é o colonial. Também do próprio meio em que se ia daquela formando lhe não proveio então qualquer influxo mental que pudesse contribuir para distingui-la. E como assim foi até quase acabar o século XVIII, não apresenta períodos claros e definidos da sua evolução nesse lapso. As reações que daquele meio porventura sofreu foram apenas de ordem física, a impressão da terra em seus filhos; de ordem fisiológica, os naturais efeitos dos cruzamentos que aqui produziram novos tipos étnicos; e de ordem política e social, resultantes das lutas com os holandeses e outros forasteiros, das expedições conquistadoras do sertão, dos descobrimentos das minas e conseqüente dilatação do país e aumento da sua riqueza e importância. Estas reações não bastaram para de qualquer modo infirmar a influência espiritual portuguesa e minguar-lhe os efeitos. Criaram, porém, o sentimento por onde a literatura aqui se viria a diferençar da portuguesa. As divisões até hoje feitas no desenvolvimento da nossa literatura não parece correspondam à realidade dos fatos. Mostra-o a sua mesma variação e diversidade nos diferentes historiadores da nossa literatura, e até mesmo no principal deles, incoerente consigo mesmo. Após acurado estudo desses fatos tenho por impossível e vão assentá-los em divisões perfeitamente exatas ou dispô-los em bem distintas categorias. Fazê-lo com êxito importaria o mesmo que descobrir outros tantos aspectos diversos e característicos em uma literatura sem autonomia, atividade e riqueza bastantes para se nela passarem as alterações de inspiração, de estesia ou de estilo que discriminam e assentam os períodos literários; uma literatura que em trezentos anos da sua existência apagada e mesquinha não experimentou outras reações espirituais que as da Metrópole, servilmente seguida. Assim sendo, é evidente que os únicos períodos literários aqui verificáveis seriam os mesmos ali averiguados. Quando começava aqui a literatura, lá havia terminado, ou estava terminando, o quinhentismo, a melhor época da portuguesa. Principiava então lá o seiscentismo, prematura e rápida degradação daquele brilhante momento, cuja brevidade era aliás consoante com a da época de esplendor nacional, revendo tudo o que de ocasional e fortuito houvera nos escassos cem anos da dupla glória portuguesa. Mas, como acertadamente nota um novo crítico, "o seiscentismo não terminou em 1699, no último dia do ano, perdurou até a segunda metade do século XVIII e a Arcádia e suas imitações não encerram o século XVIII; a Arcádia de Antônio Dinis só se fundou em 1756. No segundo quartel ainda Antônio José satirizava o gongorismo, que era uma atualidade".

Leia mais, faça o download do Livro.

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http://www.mediafire.com/?jiawtjkmmwd

Livro Charneca em Flor - Florbela Espanca


Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Quer mais dessa poetisa maravilhosa? Faça o Dowload!!!


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Descarrego - Aline C. Costa



Certa vez ouvi de um psicólogo que escrever faz bem para a mente e esvazia o coração da dor. É certo que não acreditei, mas em vias de tanta dor, não vejo outra saída a não ser em me apoiar nas coisas que me são ditas. Estou aqui, perante um computador, que não me ouve, não me diz, não me sente, tentando em vão digitar alguma palavra que consiga exprimir e espremer, se assim desejar algumas palavras que transmitam todo o meu sentimento.
Sinto o meu coração vazio. Esta primeira frase meio perdida e sem nexo, talvez lhe pareça um tanto quando esporádica ou até mesmo fugidia, mas meu peito que outrora transbordava ansiedade e vontade, hoje está oco , desesperanço e com um medo infindável. Lembro-me de falar muitas vezes não saber das dores dos outros, por não ter passado por algo parecido ou por não ter perdido alguém próximo, era fácil lidar com o sentimento de morte, quando a ceifadora não está à espreita, esperando que seu amado pai desfaleça, essa sensação de morte é algo inexplicável e de certa maneira nos deixa sem caminho, sem alicerce.
Acreditava que minha fé voltaria, mas tristemente percebo que estou afastando - me cada vez mais do resquício que em mim sobrara. Pensava em minha vã filosofia que Deus repousaria em meu peito e afagaria minha cabeça, retirando a dor do meu peito. Mas o que obtive foi à prova daquilo que afirmava sem querer afirmar “Deus não interfere nas desgraças do mundo, Ele não ficará ao teu lado quando precisares de uma mão amiga”.
Hoje experimento o vazio existencial, aquele que recusei, ignorei, por haver em mim esperança de um mundo melhor, com pessoas melhores. Mas quando sentes a dor da perda, percebe a finitude da vida e o quanto ela não fará diferença nesse mundo auto-sustentável. Não somos nada! Nunca seremos nada! O que te faz humano? O que te faz sentir melhor que os outros habitantes do planeta? Apenas um lampejo de consciência de si, que perderas com a morte, que é a única certeza da vida.
Minha dor não está desaparecendo quando preencho essa página de lágrima e sangue, meu vazio não está se entupindo de significado nestas palavras que não conseguem demonstrar nem um milímetro do que se passa em minha mente, em meu coração. Queria que fosse diferente, sofro por não poder mudar essa cruel realidade humana, não quero que a morte bata em minha porta e leve consigo meu amor, meu genitor, aquele que me ensinou a assobiar, a fazer massa, tijolos, pregar pregos e soltar pipas. Não acredito na perenidade da vida, não creio nos laços paternais pós-morte, e sofro por saber que te perderei, e que quando nos encontrarmos no plano espiritual, se é que nos encontraremos, não serás mais meu pai e eu não serei mais tua filha.

Poesia de Improviso Terceira Parte - Jussara Alves


Capitu sorriu para animar-me
Como se possível fosse então
Retirarme desse poço
De constante humilhação

Aquele meu sorriso largo
De repente em turbilhão
Abandonou-me só no barco
Do mar da inquietação

Ao léu sob o intenso sol
De um infindável verão
Queima minha pele escaldada
De tanta desilusão

E na fria noite sem fim
Do inverno em meu coração
Congela-me as esperanças
Em novos tempos que nunca virão

Procuro abrigo nos amigos
Nos desconhecidos uma mão
Em mim procuro a saída
Tento em vão a salvação

Família nada percebe ou não
Quer aconselhar ou dar sermão
Enquanto isso prossigo só
Em meio à impiedosa multidão

Amigas e amigos
Capitus do meu viver
Dentro de mim há um vácuo
Que preciso preencher

Um abraço é tudo que eu preciso
E tudo que não posso ter,
Isso que vês não são lágrimas
É a forma liquefeita do meu sofrer

Retirada da Obra de Machado de Assis "Dom Casmurro" a frase:Capitu sorriu para animar-me

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Poesia e Prosa de Improviso Segunda Parte - Dulce Costa


"Dez Minusculas Letras em Negro"
Uma linda orquídea branca, como um último carinho. No cartão, apenas duas palavras, frias, cortantes como se fossem a afiada lâmina de uma adaga. - Beijo Adeus. - “Dez minúsculas letras a negro sobre a desolada superfície ocre do papel”, não mais que isso, que bastavam para definir o fim de um sonho, a tristeza de uma alma, o vazio que envolveria sua vida, a ausência que seria sempre presença em seus dias...
Ele sempre se valera da delicadeza, da beleza das orquídeas como mensageiras de seu carinho, de seu amor; sempre fizera delas o arauto de sua felicidade, enviando-as, invariavelmente, após cada significativo momento. As lilases vinham depois de um doce momento de amor, as amarelas chegavam quando havia alguma mágoa, algum desencanto, as brancas, quando estando longe, sentia saudade...
A que retinha agora entre as mãos, e que mal podia enxergar através dos olhos banhados de lágrimas, a mais linda de todas as que já recebera, trazendo um último beijo, o definitivo adeus, carregava em suas delicadas pétalas toda uma história de amor, de carinho, de perdão, e uma estraçalhadora renúncia, um “nunca mais” que a jogava na mais dura e cruel realidade... Realidade que ela teria que enfrentar, que superar, custasse o que custasse, ela bem o sabia, mas naquele momento, seu mundo interior completamente desfeito, o chão parecendo sumir sob seus pés, sentindo-se imensamente só, como se fora a última criatura viva sobre a face da terra - e nem se sentia viva - enrodilhou-se em seu sofá predileto, esmagando a delicada flor entre seus dedos crispados e dando vazão ao desespero que lhe invadia a alma, lançou-se num pranto que parecia sem fim, que só findou quando, vencida pelo cansaço, adormeceu ali mesmo, sem perceber que o sol nascia radiante, lá fora, e que a vida continuava, imutável, apesar de sua dor.

Dulce Costa
(09/02/2009)

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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Posia de Improviso Primeira Parte - Aline C. Costa

"Sou dual, vivo entre opostos... aqueles litigiosos"

Sou dual,
Pontual,
Irracional,
Temperamental...
Desacredito acreditando,
Vivo morrendo,
Percebo desapercebendo
a beleza das pequenas coisas,
e a pequenez das grandes...
Sou dual,
sou Humano,
imoral,
débil- mental...
Vivo procurando,
sem querer chegar a nenhum lugar.
Nego afirmando,
que não existo
para mim, a não ser que exista para ti.
Sou dual,
material,
imortal,
atemporal...
Sou um misto
de tudo e nada
de nada e todo,
sou crente,
sou demente,
sou atéia,
sou Medeia...
Sou dual, “poethic”
De palavra nenhuma
Em uma miscelânea
de significância
insignificante
Sou dual...
Apenas assim...
Percebo-me no todo,
e no nada universal......


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Convite à poesia improvisada...


Recebi do meu querido amigo, O Poeta Marcelo R. Dantas, do blogue Multicultural-Cinema e Música, um convite para executar as seguinte tarefas:

1 - agarrar o livro mais próximo;
2 - abrir na página 161;
3 - procurar a 6ª frase;
4 - colocar a frase completa no blogue;
5 - produzir um texto com a frase;
6 - repassar a "tarefa" para 5 pessoas.

O livro que estava mais próximo era "SIDERAÇÕES" ,publicado pelo próprio dono do Multicultural Marcelo R. Dantas em 2001, publicação do próprio autor juizforano. A sexta frase do poema "Encadeamento", que está na página 161, é a seguinte:

"Mas sou dual, vivo entre opostos...aqueles litigiosos"

Leiam o que rabisquei no poema acima.

Agora convido os seguintes amigos para a superação da escrita do improviso:

http://em-prosa-e-verso.blogspot.com/ - Dulce Costa
http://olivroqueeuli.blogspot.com/ - Dulce Mary Godinho
http://emocoesnadamais.blogspot.com/ - Jussara Alves
http://www.blogger.com/profile/11453317180363079219 - O Claro
http://apalavraeocanto.blogspot.com/ - Anibal Raposo

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Não és nada - Daniela Pereira

Não és nada
e nunca foste nada
para os outros
que são tudo para ti.
Nem mesmo aquele ínfimo pedaço
que de ti deste
julgando ser o teu maior pedaço
chegou para preencher
algum espaço no céu com o teu nome.

És um vazio na terra
que nada tem por dentro
para além de sentimentos ocos
e emoções emprestadas .
Não tens vida própria
e vives à custa dos outros
esperando alimentar os teus sonhos
com as migalhas que os outros te dão
em troca do pouco que lhes dás.

Depois é ver-te a escrever como louca
a pensar que alguém escuta as tuas palavras
e só porque as carregas com toda as tuas forças no papel
julgas estupidamente
que podes assim deixar alguma marca.
Mas não...
Digo-te que não deixas nem um traço
porque és apenas pó
e o vento sopra-te rapidamente da folha sem remorso algum.

Não amas
e nem sequer podes mais amar
com esse coração assim desfeito
por tantos medos aguçados.
É que tu sabes bem
que assustas qualquer sentimento
que passeie alegremente pelo teu peito
com todo esse medo que tens colado a ti
e nem sequer te importas.

Já não enfrentas o mundo...
Se é que alguma vez o enfrentaste de frente
porque sempre te vi fugir
como um cachorro assustado.
Já não sabes como se luta
porque te esqueceste como isso se faz
de tanto estares
enfiada nesse teu buraco seguro
cercada de fantasias.

Esperneias...
Gritas e choras
e enquanto te debates sozinha
por entre dúvidas e certezas
nos teus pensamentos mal amanhados
vais suplicando
como um peixe fora de água

que te deixem ao menos respirar.

Então, hoje sei que olhas sufocada
para aquela caneta
que tantas vezes te fez sorrir
e até ela baixa os olhos
perante toda essa tristeza
que adivinha estar estampada nesse teu rosto.
E tal como tantos outros
ela também já se sente enfadada
das tuas lamurias sem nexo
que esculpes com as tuas mãos
nas curvas da poesia morta.
Agora ela só quer
procurar outros poetas
que saibam celebrar com as palavras
essa vida que tu
já não tens nos teus dedos.

PS: Esta poesia foi carinhosamente exposta em meus comentários e por achá-la linda resolvi postá-la para que todos tenham acesso.

Livro Poesias Satíricas Bocageanas -


A um mau médico

"Doutor, até do hospital
Te sacode enfermo bando.
Qual será disto a causal?
É porque, em tu receitando,
Qualquer doença é mortal."


Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage (Setúbal, 15 de Setembro de 1765 — Lisboa, 21 de Dezembro de 1805), poeta português e, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano. Embora ícone deste movimento literário, é uma figura inserida num período de transição do estilo clássico para o estilo romântico que terá forte presença na literatura portuguesa do século XIX. Era primo em segundo grau do zoólogo José Vicente Barbosa du Bocage.

Biografia

Nascido em Setúbal às três horas da tarde de 15 de Setembro de 1765, falecido em Lisboa na manhã de 21 de Dezembro de 1805, era filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa, juiz de fora, ouvidor, e depois advogado, e de D. Mariana Joaquina Xavier l'Hedois Lustoff du Bocage, cujo pai era francês.
Teve cinco irmãos. O pai do poeta, José Luís Soares de Barbosa, nasceu em Setúbal, em 1728. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, foi juiz de fora em Castanheira e Povos, cargo que exercia durante o Terramoto de 1755, que arrasou aquelas povoações.
Em 1765, foi nomeado ouvidor em Beja. Acusado de ter desviado a décima enquanto ouvidor, possivelmente uma armadilha para o prejudicar, visto ser próximo de pessoas que foram vítimas de Pombal, o pai de Bocage foi preso para o Limoeiro em 1771, nunca chegando a fazer defesa das suas acusações. Com a morte do rei D. José I, em 1777, dá-se a "viradeira", que valeu a liberdade ao pai do poeta, que voltou para Setúbal, onde foi advogado.
A sua mãe era segunda sobrinha da célebre poetisa francesa, madame Anne-Marie Le Page du Bocage, tradutora do "Paraíso" de Milton, imitadora da "Morte de Abel", de Gessner, e autora da tragédia "As Amazonas" e do poema épico em dez cantos "A Columbiada", que lhe mereceu a coroa de louros de Voltaire e o primeiro prémio da academia de Rouen.
Apesar das numerosas biografias publicadas após a sua morte, boa parte da sua vida permanece um mistério. Não se sabe que estudos fez, embora se deduza da sua obra que estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, que estudou francês e também latim. A identificação das mulheres que amou é duvidosa e discutível.
A sua infância foi infeliz. O pai foi preso , quando ele tinha seis anos e permaneceu na cadeia seis anos. A sua mãe faleceu quando tinha dez anos. Possivelmente ferido por um amor não correspondido, assentou praça como voluntário em 22 de Setembro de 1781 e permaneceu no Exército até 15 de Setembro de 1783. Nessa data, foi admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares para guarda-marinha. No final do curso desertou, mas, ainda assim, aparece nomeado guarda-marinha por D. Maria I.
Nessa altura, já a sua fama de poeta e versejador corria por Lisboa.
Em 14 de Abril de 1786, embarcou como oficial de marinha para a Índia, na nau “Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena”, que chegou ao Rio de Janeiro em finais de Junho.
Na cidade, viveu na actual Rua Teófilo Otoni, e diz o "Dicionário de Curiosidades do Rio de Janeiro" de A. Campos - Da Costa e Silva, pg 48, que "gostou tanto da cidade que, pretendendo permanecer definitivamente, dedicou ao vice-rei uma poesia-canção cheia de bajulações, visando atingir seus objectivos. Sendo porém o vice-rei avesso a elogios, fê-lo prosseguir viagem para as Índias". Fez escala na Ilha de Moçambique (início de Setembro) e chegou à Índia em 28 de Outubro de 1786. Em Pangim, frequentou de novo estudos regulares de oficial de marinha. Foi depois colocado em Damão, mas desertou em 1789, embarcando para Macau.
Foi preso pela inquisição, e na cadeia traduziu poetas franceses e latinos.
A década seguinte é a da sua maior produção literária e também o período de maior boémia e vida de aventuras.
Ainda em 1790 foi convidado e aderiu à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia, onde adoptou o pseudónimo Elmano Sadino. Mas passado pouco tempo escrevia já ferozes sátiras contra os confrades.
Em 1791, foi publicada a 1.ª edição das “Rimas”.
Dominava então Lisboa o Intendente da Polícia Pina Manique que decidiu pôr ordem na cidade, tendo em 7 de Agosto de 1797 dado ordem de prisão a Bocage por ser “desordenado nos costumes”. Ficou preso no Limoeiro até 14 de Novembro de 1797, tendo depois dado entrada no calabouço da Inquisição, no Rossio. Aí ficou até 17 de Fevereiro de 1798, tendo ido depois para o Real Hospício das Necessidades, dirigido pelos Padres Oratorianos de São Filipe Neri, depois de uma breve passagem pelo Convento dos Beneditinos. Durante este longo período de detenção, Bocage mudou o seu comportamento e começou a trabalhar seriamente como redactor e tradutor. Só saiu em liberdade no último dia de 1798.
De 1799 a 1801 trabalhou sobretudo com Frei José Mariano da Conceição Veloso, um frade brasileiro, politicamente bem situado e nas boas graças de Pina Manique, que lhe deu muitos trabalhos para traduzir.
A partir de 1801, até à morte por aneurisma, viveu em casa por ele arrendada no Bairro Alto, naquela que é hoje o n.º 25 da travessa André Valente.
A 15 de Setembro, data de nascimento do poeta, é feriado municipal em Setúbal.


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Livro último Soneto - Cruz e Souza



Piedade:

O coração de todo o ser humano
Foi concebido para ter piedade,
Para olhar e sentir com caridade
Ficar mais doce o eterno desengano.

Para da vida em cada rude oceano
Arrojar, através da imensidade,
Tábuas de salvação, de suavidade,
De consolo e de afeto soberano.

Sim! Que não ter um coração profundo
É os olhos fechar à dor do mundo,
ficar inútil nos amargos trilhos.

É como se o meu ser campadecido
Não tivesse um soluço comovido
Para sentir e para amar meus filhos!

Quer ler mais? Faça o Download do livro:

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Livro A Poesia Interminável - Cruz e Souza


João da Cruz e Sousa viveu e morreu pobre e marcado pelo preconceito de cor e de classe social. A tuberculose matou a ele, ao filho e à companheira. os parnasianos isolavam sua poesia. Alguns dos literatos mais importantes de seu tempo discriminavam-no pessoalmente. Apesar de todo sofrimento e violência que marcaram sua vida, ele circulou no meio literário desde jovem, onde foi reconhecido como um poeta de qualidade ímpar.
Seu trabalho sempre foi acolhido na imprensa e esteve presente em livros individuais ou antologias. Razão pela qual sua arte está espalhada por espaços, até hoje, não estabelecidos por completo.
O título desta coletânea foi inspirado em tal situação. Embora seu espólio venha contando sempre com guardiões cuidadosos e sua obra venha sendo pesquisada cuidadosamente desde há muito, ainda surgem textos que o estilo e a dicção permitem que sejam atribuídos a sua lavra, mesmo quando não assinados. Seria como se o poeta e sua produção fossem fisicamente intermináveis, tal qual a beleza de sua poesia.
O método para estabelecer a coleção que estamos apresentando aqui foi o da acumulação de informações. A primeira fonte pesquisada foi o trabalho preparado por Andrade Muricy para o Instituto Nacional do Livro, em 1945, onde estão o Livro derradeiro, Campesinas, Cambiantes e Juvenília, títulos sugeridos pelo próprio poeta ou inventados pelo pesquisador. Juntaram-se a eles poesias de Julieta dos Santos e outras encontradas posteriormente em sebos, arquivos e coleções diversas, inclusive no acervo da Fundação Biblioteca Nacional, e estão reproduzidas e referidas em edições fac-símiles, estudos críticos, antologias e catálogos.
Na edição dos textos, o material escolhido foi organizado aludindo àqueles títulos. Todavia, foram criadas novas denominações que agregassem os novos achados, como a que destaca as poesias dedicadas às musas de todos os tempos. Foram juntados, também, versos, palavras e poesias atribuídas a Cruz e Sousa que integram o acervo Araújo Figueiredo. Neste caso, sempre se fizeram acompanhar de notas de nossa autoria. O critério ortográfico básico foi a norma culta atual. As dúvidas quanto à grafia e acentuação foram resolvidas através do cotejo entre diferentes edições, dicionários e gramáticas, além do interesse poético. Os versos foram sempre iniciados por maiúsculas, mesmo quando originais consultados referem minúsculas, como foi o caso de alguns de Violeta dos Santos: a decisão foi tomada, acompanhando os editores mais recentes, embora as versões de 45 e do centenário do poeta utilizem variações para a questão

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Livro Broquéis - Cruz e Souza


É composto por 54 poemas, demarcados com a presença da cor branca em variados jogos e matizes - seja a presença da luminosidade do luar, da neblina; seja a presença da neve, das imagens vaporosas, dos cristais, como no belíssimo 'Antífona', poema de abertura da obra.

'Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...'

A partir de um dos sonetos do livro - Carnal e Místico, define-se a dicotomia que será básica nesses poemas. A carne, a sensualidade e a luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas.
O soneto é a forma poética mais cultivada em 'Broquéis' - ainda um traço parnasiano - mas a temática é inteiramente simbolista, bem como determinados recursos verbais inequívocos: estilização de diferentes apoios fonéticos, como a assonância, as aliterações, os cognatismos e as sinestesias, criando assim um universo etéreo, delicado, musical.

'Musselinosas como brumas diurnas
descem do ocaso as sombras harmoniosas,
sombras veladas e musselinosas
para as profundas solidões noturnas.'

A carne, a sensualidade e luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas. A lasciva da carne atrativa manifesta-se em 'Lésbia':

'...Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente.
Das flamejantes atrações do gozo...'

Como revela este soneto, o transcendental de Cruz e Souza não se define claramente. Não se trata do 'céu' de nenhuma religião concreta. Sempre vagas são as expressões que a ele se referem: naves do Infinito, regiões tenuíssimas da bruma, mundos ignorados, vagos infinitos, branco Sacrário das Saudades, Estrelas do Infinito, Azuis dos siderais Empíreos, Azuis etéreos.
Essa mesma indefinição vaga caracteriza as referências reiteradas ao tema do sonho, bem como a redução freqüente de tudo a 'quimera'.
Os dilaceramentos paradoxais, a busca ansiosa de uma realidade satisfatória, o confronto dos débitos carnais com as aspirações místicas conduzem o poema a temáticas vigorosas, densas, trágicas e dramáticas, atingindo até o grotesco. São explosões de vida que se torturam na ânsia de realização, impedidas por barreiras, convenções ou preconceitos. A própria seleção vocabular densifica esse vigor dinâmico impresso nos versos: o poeta se refere a Satã como capro e revel, com bizarros e lúbricos contornos e báquicos adornos. A adjetivação carrega de particular intensidade dramática a realidade enfocada, como em 'a torva Morte horrenda,/ atra, sinistra, gélida, tremenda'. Ou então é a tortura eterna da expressão arística que angustia o poeta:

'Ah' que eu não possa eternizar as dores
nos bronzes e nos marmóreos eternos.'

Broquéis é um livro de poesia maior. O Simbolismo nele refulge na sua linguagem colorida, exótica e vigorosa; na abstração vaga e diluída de toda a materialidade; na imprecisa mas dominante tendência mística, envolvendo todo um vocabulário litúrgico; na linguagem figurada, constantemente fórica, de aliterações e sinestesias; na crescente musicalidade que emana de seus versos. São poemas simbolistas, mas poemas carregados de sentimento e de vivências vigorosas. Poemas que identificam a tortura existencial do poeta, totalmente dedicado à criação poética.
Se em 'Broquéis' predominam os sonetos, integram 'Faróis' menos sonetos e mais poemas longos. Se no livro anterior já emergia a concepção dramática da vida, em 'Faróis' se intensifica esse senso trágico da existência atingindo níveis de morbidez e satanismo. Conscientiza-se o poeta cada vez mais do seu em paredamento. Avoluma-se sua angústia ante o destino inclemente, como estabelece claramente 'Meu Filho', um dos raros poemas referentes à família:

'Ah! Vida! Vida! Vida! Incendiada tragédia.
Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,
Macabras contorções de lúgubre comédia
Que um cérebro de louco houvesse imaginado'.

Pemas como 'Pandemonium', 'A Flor do Diabo', 'Tédio', 'Caveira', 'Música da Morte', 'Inexorável', 'Olhos de Sonho', 'Litania dos Pobres' constituem alguns exemplos que acentuam os aspectos trágicos, macabros e mesmo satânicos da existência, conduzindo a cenas e descrições dramáticas. O poema final - 'Ébrios e cegos' - sintetiza, em cores negras, esse quadro trágico da existência:

'Mas ah! Torpe matéria!
Se as atritassem, como pedras brutas,
Que chispas de miséria
Romperiam de tais almas corruptas!.'


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Pequenas divagações - Aline C. Costa

Tanto já se escreveu sobre a morte, acho até que ela é a principal personagem da vida. Essa dualidade, sempre me interessou: morte/vida. Desde menina, pensei em ti, oh morte, muitas vezes te esperei na minha janela, e sonhei contigo. Sentia uma saudade dentro de mim que não sabia explicar, saudade de outro lugar, de outras pessoas, de outro tempo, e acreditava que as férias que passava na Terra, acabariam com a morte e voltaria da onde nunca deveria ter partido. Lembro-me de um sonho de infância que um elefante com asas me levava para rever velhos amigos e subíamos no infinito céu azul rodopiando, mas não pude adentrar no tão almejado lugar, fizeram-me voltar. Essa saudade rodeou toda a minha meninice, era introspectiva e perdia-me em livros e mundos imaginários. Hoje percebo que a saudade virou angústia, uma angustia constante. Apeguei-me a esse mundo e ainda sinto falta do outro que não me recordo. Apeguei-me aos medos, a sociedade, ao ser humano. Humanizei-me ao longo dos tempos e não consigo conviver com a dor puramente humana: tenho medo, medo de morrer e de ver àqueles que me acolheram, morrerem primeiro que eu.
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ausência - Carlos Drummond de Andrade


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


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Não se Mate - Carlos Drummond de Andrade


Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.

Procura da Poesia - Carlos Drummond de Andrade


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Cálice - Chico Buarque e Gilberto Gil



Cálice
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque e Gilberto Gil

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...(2x)

Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Prá a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

De muito gorda
A porca já não anda
(Cálice!)
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
(Cálice!)
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Talvez o mundo
Não seja pequeno
(Cálice!)
Nem seja a vida
Um fato consumado
(Cálice!)
Quero inventar
O meu próprio pecado
(Cálice!)
Quero morrer
Do meu próprio veneno
(Pai! Cálice!)
Quero perder de vez
Tua cabeça
(Cálice!)
Minha cabeça
Perder teu juízo
(Cálice!)
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
(Cálice!)
Me embriagar
Até que alguém me esqueça
(Cálice!)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Livro A Pedra do Reino - Ariano Suassuna


Ariano Suassuna é um dos mais importantes dramaturgos brasileiros, autor dos célebres Auto da Compadecida e A Pedra do Reino, é um defensor militante da cultura do Nordeste
Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta é um romance do escritor brasileiro Ariano Suassuna, publicado em 1971.
É inspirado em um episódio ocorrido no século XIX, no município sertanejo de São José do Belmonte, a 470 quilômetros do Recife, onde uma seita, em 1836, tentou fazer ressurgir o rei Dom Sebastião - transformado em lenda em Portugal depois de desaparecer na África (Batalha de Alcácer-Quibir): sob domínio espanhol, os portugueses sonhavam com a volta do rei que restituiria a nação tomada à força. O sentimento sebastianista ainda hoje é lembrado em Pernambuco, durante a Cavalgada da Pedra do Reino, por manifestação popular que acontece anualmente no local onde inocentes foram sacrificados pela volta do rei.
Suassuna iniciou o Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, seu nome completo, em 1958 para concluí-lo somente uma década depois, quando o autor percebeu o que o levou a escrever o romance: a morte do pai, quando tinha apenas três anos de idade – tragédia pessoal presente na literatura de Suassuna, e a redenção do seu "rei" – uma reação contra o conceito vigente na época, segundo o qual as forças rurais eram o obscurantismo (o mal) e o urbano o progresso (o bem).
A história, baseada na cultura popular nordestina e inspirada na literatura de cordel, nos repentes e nas emboladas, é dedicada ao pai do autor e a mais doze “cavaleiros”, entre eles Euclides da Cunha, Antônio Conselheiro e José Lins do Rego.
Um "romance-memorial-poema-folhetim", como definiu o poeta Carlos Drummond de Andrade, narrado pelo seu protagonista, Dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna, que constrói um monumento literário à cultura caboclo-sertaneja nordestina, marcada pelas tradições do mundo ibérico (Portugal e Espanha), trazidas pelos primeiros colonizadores europeus e transfeitas ao longo dos séculos. Segundo observação do crítico literário João Hernesto Weber, na obra podem ser encontradas "duas distintas tradições a informarem a concepção de mundo do herói: a tradição mítico-sertaneja e a tradição erudita".
O personagem-narrador, Quaderna, é preso em Taperoá por subversão, faz sua própria defesa perante o corregedor e, para tanto, relata a história de sua família, escrita na prisão. Declara-se descendente de legítimos reis brasileiros, castanhos e "cabras" da Pedra do Reino - sem relação com os "imperadores estrangeiros e falsificados da Casa de Bragança" - e conta o seu envolvimento com as lutas e as desavenças políticas, literárias e filosóficas no seu reino.
Na época do seu lançamento, o livro foi considerado um marco da literatura nordestina, após o ciclo do romance regional de 1930. A obra foi adaptada para o cinema, o teatro e a televisão

Veja também a adaptação feita para o a a televisão....


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