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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Livro último Soneto - Cruz e Souza



Piedade:

O coração de todo o ser humano
Foi concebido para ter piedade,
Para olhar e sentir com caridade
Ficar mais doce o eterno desengano.

Para da vida em cada rude oceano
Arrojar, através da imensidade,
Tábuas de salvação, de suavidade,
De consolo e de afeto soberano.

Sim! Que não ter um coração profundo
É os olhos fechar à dor do mundo,
ficar inútil nos amargos trilhos.

É como se o meu ser campadecido
Não tivesse um soluço comovido
Para sentir e para amar meus filhos!

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Livro A Poesia Interminável - Cruz e Souza


João da Cruz e Sousa viveu e morreu pobre e marcado pelo preconceito de cor e de classe social. A tuberculose matou a ele, ao filho e à companheira. os parnasianos isolavam sua poesia. Alguns dos literatos mais importantes de seu tempo discriminavam-no pessoalmente. Apesar de todo sofrimento e violência que marcaram sua vida, ele circulou no meio literário desde jovem, onde foi reconhecido como um poeta de qualidade ímpar.
Seu trabalho sempre foi acolhido na imprensa e esteve presente em livros individuais ou antologias. Razão pela qual sua arte está espalhada por espaços, até hoje, não estabelecidos por completo.
O título desta coletânea foi inspirado em tal situação. Embora seu espólio venha contando sempre com guardiões cuidadosos e sua obra venha sendo pesquisada cuidadosamente desde há muito, ainda surgem textos que o estilo e a dicção permitem que sejam atribuídos a sua lavra, mesmo quando não assinados. Seria como se o poeta e sua produção fossem fisicamente intermináveis, tal qual a beleza de sua poesia.
O método para estabelecer a coleção que estamos apresentando aqui foi o da acumulação de informações. A primeira fonte pesquisada foi o trabalho preparado por Andrade Muricy para o Instituto Nacional do Livro, em 1945, onde estão o Livro derradeiro, Campesinas, Cambiantes e Juvenília, títulos sugeridos pelo próprio poeta ou inventados pelo pesquisador. Juntaram-se a eles poesias de Julieta dos Santos e outras encontradas posteriormente em sebos, arquivos e coleções diversas, inclusive no acervo da Fundação Biblioteca Nacional, e estão reproduzidas e referidas em edições fac-símiles, estudos críticos, antologias e catálogos.
Na edição dos textos, o material escolhido foi organizado aludindo àqueles títulos. Todavia, foram criadas novas denominações que agregassem os novos achados, como a que destaca as poesias dedicadas às musas de todos os tempos. Foram juntados, também, versos, palavras e poesias atribuídas a Cruz e Sousa que integram o acervo Araújo Figueiredo. Neste caso, sempre se fizeram acompanhar de notas de nossa autoria. O critério ortográfico básico foi a norma culta atual. As dúvidas quanto à grafia e acentuação foram resolvidas através do cotejo entre diferentes edições, dicionários e gramáticas, além do interesse poético. Os versos foram sempre iniciados por maiúsculas, mesmo quando originais consultados referem minúsculas, como foi o caso de alguns de Violeta dos Santos: a decisão foi tomada, acompanhando os editores mais recentes, embora as versões de 45 e do centenário do poeta utilizem variações para a questão

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http://www.4shared.com/file/83780639/c8fe6ff1/poesia_interminavel.html


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Livro Broquéis - Cruz e Souza


É composto por 54 poemas, demarcados com a presença da cor branca em variados jogos e matizes - seja a presença da luminosidade do luar, da neblina; seja a presença da neve, das imagens vaporosas, dos cristais, como no belíssimo 'Antífona', poema de abertura da obra.

'Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...'

A partir de um dos sonetos do livro - Carnal e Místico, define-se a dicotomia que será básica nesses poemas. A carne, a sensualidade e a luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas.
O soneto é a forma poética mais cultivada em 'Broquéis' - ainda um traço parnasiano - mas a temática é inteiramente simbolista, bem como determinados recursos verbais inequívocos: estilização de diferentes apoios fonéticos, como a assonância, as aliterações, os cognatismos e as sinestesias, criando assim um universo etéreo, delicado, musical.

'Musselinosas como brumas diurnas
descem do ocaso as sombras harmoniosas,
sombras veladas e musselinosas
para as profundas solidões noturnas.'

A carne, a sensualidade e luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas. A lasciva da carne atrativa manifesta-se em 'Lésbia':

'...Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente.
Das flamejantes atrações do gozo...'

Como revela este soneto, o transcendental de Cruz e Souza não se define claramente. Não se trata do 'céu' de nenhuma religião concreta. Sempre vagas são as expressões que a ele se referem: naves do Infinito, regiões tenuíssimas da bruma, mundos ignorados, vagos infinitos, branco Sacrário das Saudades, Estrelas do Infinito, Azuis dos siderais Empíreos, Azuis etéreos.
Essa mesma indefinição vaga caracteriza as referências reiteradas ao tema do sonho, bem como a redução freqüente de tudo a 'quimera'.
Os dilaceramentos paradoxais, a busca ansiosa de uma realidade satisfatória, o confronto dos débitos carnais com as aspirações místicas conduzem o poema a temáticas vigorosas, densas, trágicas e dramáticas, atingindo até o grotesco. São explosões de vida que se torturam na ânsia de realização, impedidas por barreiras, convenções ou preconceitos. A própria seleção vocabular densifica esse vigor dinâmico impresso nos versos: o poeta se refere a Satã como capro e revel, com bizarros e lúbricos contornos e báquicos adornos. A adjetivação carrega de particular intensidade dramática a realidade enfocada, como em 'a torva Morte horrenda,/ atra, sinistra, gélida, tremenda'. Ou então é a tortura eterna da expressão arística que angustia o poeta:

'Ah' que eu não possa eternizar as dores
nos bronzes e nos marmóreos eternos.'

Broquéis é um livro de poesia maior. O Simbolismo nele refulge na sua linguagem colorida, exótica e vigorosa; na abstração vaga e diluída de toda a materialidade; na imprecisa mas dominante tendência mística, envolvendo todo um vocabulário litúrgico; na linguagem figurada, constantemente fórica, de aliterações e sinestesias; na crescente musicalidade que emana de seus versos. São poemas simbolistas, mas poemas carregados de sentimento e de vivências vigorosas. Poemas que identificam a tortura existencial do poeta, totalmente dedicado à criação poética.
Se em 'Broquéis' predominam os sonetos, integram 'Faróis' menos sonetos e mais poemas longos. Se no livro anterior já emergia a concepção dramática da vida, em 'Faróis' se intensifica esse senso trágico da existência atingindo níveis de morbidez e satanismo. Conscientiza-se o poeta cada vez mais do seu em paredamento. Avoluma-se sua angústia ante o destino inclemente, como estabelece claramente 'Meu Filho', um dos raros poemas referentes à família:

'Ah! Vida! Vida! Vida! Incendiada tragédia.
Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,
Macabras contorções de lúgubre comédia
Que um cérebro de louco houvesse imaginado'.

Pemas como 'Pandemonium', 'A Flor do Diabo', 'Tédio', 'Caveira', 'Música da Morte', 'Inexorável', 'Olhos de Sonho', 'Litania dos Pobres' constituem alguns exemplos que acentuam os aspectos trágicos, macabros e mesmo satânicos da existência, conduzindo a cenas e descrições dramáticas. O poema final - 'Ébrios e cegos' - sintetiza, em cores negras, esse quadro trágico da existência:

'Mas ah! Torpe matéria!
Se as atritassem, como pedras brutas,
Que chispas de miséria
Romperiam de tais almas corruptas!.'


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http://www.4shared.com/file/83780649/87bff936/broqueis.html

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Pinto, pinta - ponta à ponta - Cruz e Souza


Pinto, pinta - ponta à ponta
Tanta ponta, Pinto pinta
Que pinta se pinta a pinta
Pinto - pinta - ponta à ponta.
Pinto é ponto mas não ponta 5
Mas se pinta por um pinto
E já que o Pinto se pinta
Eu pinto-lhe a pinta ao Pinto.


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