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domingo, 10 de maio de 2009

Poema Enjoadinho - Vinícius de Morais

Filhos...Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como o queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filho? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Livro A Fera - Vinícius de Moraes


Poema enjoadinho

Filhos . . . Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete . . .
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los . . .
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

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Cinco Elegias Vinicius de Moraes


Marcha de quarta-feira de cinzas

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou.

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri, se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor.

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade...

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir, voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar.

Porque são tantas coisas azuis
Há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe...

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz.

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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Livro Antologia Poética - Vinicius de Moraes


Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

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Livro Procura - se Uma Rosa - Vinícius de Moraes


Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

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quinta-feira, 5 de março de 2009

Audio Livro Crônicas e Poesias Vinicius de Moraes


Nome do autor: Vinicius de Moraes
Tipo de Arquivos: Arquivos mp3
Nome e Conteúdo dos Arquivos: O CD não tem nome específico mas contém Crônicas e poesias
Interprete: Odete Lara

Titulo dos Contos:

A Hora Intima (3,38 MB)
O Poeta e a Rosa (1,92 MB)
Elegia Desesperada (7,05 MB)
Soneto do Corifeu (1,17 MB)
Soneto do Amor Maior (0,98 MB)
Soneto do Amor Total (1,63 MB)
Soneto de Separação (1,52 MB)
Soneto de Fidelidade (1,15 MB)
O Operário em Construção (7,80 MB)
Poema de Auteil (3,99 MB)
Pátria Minha (5,02 MB)
Mensagem a Rubem Braga (8,26 MB)

Dados informativos:

Essa coletânea, produzida por Paulinho Lima, para a distribuidora Luz da Cidade Produções Artísticas, Fonográficas e Editoriais Ltda. A relação acima está na ordem exata em que foi gravado o CD.

Resenha do CD:

Há um lindo e antigo elo poético-musical-fonográfico entre Odete Lara e Vinicius de Moraes. Foi de vozes e mãos dadas com Odete que um tímido Vinicius entrou pela primeira vez num estúdio para gravar um disco - Vinicius & Odete, pela Elenco, em 1962. Eram tempos de astronautas, bênçãos e berimbaus. Os anos se passaram e, enquanto Vinicius tornou-se senhor dos estúdios, dos palcos e das luzes, Odete fez o caminho contrário: escolheu uma sombra onde recolher-se e buscar a sua própria luz interior - que encontrou.
Agora, os dois estão de volta ao microfone. Só que, desta vez, Odete não tem Vinicius fisicamente ao seu lado. Mas ele está dentro dela, dentro de nós, impregnando-nos com sua tremenda poesia.
Odete diz Vinicius como Vinicius dizia Vinicius: com um véu na voz par disfarçar a clareza do pensamento e com um traço de melancolia par sublinhar a beleza desses versos cheios de compaixão.
Ruy Castro

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Audio Livro Crônicas e Poesias - Vinicius de Moraes


Resenha do CD:

Há um lindo e antigo elo poético-musical-fonográfico entre Odete Lara e Vinicius de Moraes. Foi de vozes e mãos dadas com Odete que um tímido Vinicius entrou pela primeira vez num estúdio para gravar um disco – Vinicius & Odete, pela Elenco, em 1962. Eram tempos de astronautas, bênçãos e berimbaus. Os anos se passaram e, enquanto Vinicius tornou-se senhor dos estúdios, dos palcos e das luzes, Odete fez o caminho contrário: escolheu uma sombra onde recolher-se e buscar a sua própria luz interior – que encontrou.
Agora, os dois estão de volta ao microfone. Só que, desta vez, Odete não tem Vinicius fisicamente ao seu lado. Mas ele está dentro dela, dentro de nós, impregnando-nos com sua tremenda poesia.
Odete diz Vinicius como Vinicius dizia Vinicius: com um véu na voz par disfarçar a clareza do pensamento e com um traço de melancolia par sublinhar a beleza desses versos cheios de compaixão.
Ruy Castro

Faixas:

A Hora Intima (3,38 MB)
O Poeta e a Rosa (1,92 MB)
Elegia Desesperada (7,05 MB)
Soneto do Corifeu (1,17 MB)
Soneto do Amor Maior (0,98 MB)
Soneto do Amor Total (1,63 MB)
Soneto de Separação (1,52 MB)
Soneto de Fidelidade (1,15 MB)
O Operário em Construção (7,80 MB)
Poema de Auteil (3,99 MB)
Pátria Minha (5,02 MB)
Mensagem a Rubem Braga (8,26 MB)



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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Soneto do Amor Total - Vinicius de Moraes



Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O Velho E A Flor - Vinicius de Moraes




Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor assim falou:

O amor é o carinho
É o espinho que não se vê em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Livro Poesia e Prosa Completa Vinicius de Moraes


Este livro editado pela Editora Nova Aguilar é a reunião completa da prosa e poesia de Vinicius de Moraes. Uma fantástica aventura na vida e nas paixões vividas pelo poeta dos amores constantes, da bebedeira e da lucidez. Vinicius de Moraes pegou o terceiro lugar, atrás de Pablo Neruda e Gabriel Garcia Marques, numa eleição feita na internet para apontar as 100 personalidades mais influentes da cultura latino-americana. Jornal do Brasil - Caderno Idéias, 08/11/08.


Poeta essencialmente lírico, o poetinha (como ficou conhecido) notabilizou-se pelos seus sonetos, forma poética que se tornou quase associada ao seu nome. Conhecido como um boêmio inveterado, fumante e apreciador do uísque, era também conhecido por ser um grande conquistador. O poetinha casou-se por nove vezes ao longo de sua vida.


ISSO E MUITO MAIS ESTÃO TE ESPERANDO NESSE FANTÁSTICO LIVRO:



Dowload:


http://www.mediafire.com/?dkzzanmn3un



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sábado, 13 de dezembro de 2008

Balança o Filho Morto - Vinícius de Moraes


Homem sentado na cadeira de balanço
Sentado na cadeira de balanço
Na cadeira de balanço
De balanço
Balanço do filho morto.
Homem sentado na cadeira de balanço
Todo o teu corpo diz que sim
Teu corpo diz que sim
Diz que sim
Que sim, teu filho está morto.
Homem sentado na cadeira de balanço
Como um pêndulo, para lá e para cá
O pescoço fraco, a perna triste
Os olhos cheios de areia
Areia do filho morto.
Nada restituirá teu filho à vida
Homem sentado na cadeira de balanço
Tua meia caída, tua gravata
Sem nó, tua barba grande
São a morte
são a morte
A morte do filho morto.
Silêncio de uma sala: e flores murchas.
Além um pranto frágil de mulher
De encontro à mesa, à estante, à pedra mármore
Um pranto... o olhar aberto sobre o vácuo
E no silêncio a sensação exata
Da voz, do riso, do reclamo débil.
Da órbita cega os olhos dolorosos
Fogem, moles, se arrastam como lesmas
Empós a doce, inexistente marca
Do vômito, da queda, da mijada.
Do braço foge a tresloucada mão
Para afagar a imponderável luz
De um cabelo sem som e sem perfume.
Fogem da boca lábios pressurosos
Para o beijo incolor na pele ausente.
Nascem ondas de amor que se desfazem
De encontro à mesa, à estante, à pedra mármore.
Outra coisa não há senão o silêncio
196
Onde com pés de gelo uma criança
Brinca, perfeitamente transparente
Sua carne de leite, rosa e talco.
Pobre pai, pobre, pobre, pobre, pobre
Sem memória, sem músculo, sem nada
Além de uma cadeira de balanço
No infinito vazio... o sofrimento
Amordaçoute
a boca de amargura
E esbofeteoute
palidez na cara.
Ergues nos braços uma imagem pura
E não teu filho; jogas para cima
Um bocado de espaço e não teu filho
Não são cachos que sopras, porém cinzas
A asfixiar o ar onde respiras.
Teu filho é morto; talvez fosse um dia
A pomba predileta, a glória, a messe
O teu porvir de pai; mas novo e tenro
Anjo, levouo
a morte com cuidado
De vêlo
tão pequeno e já exausto
De penar – e eis que agora tudo é morte
Em ti, não tens mais lágrimas, e amargo
É o cuspo do cigarro em tua boca.
Mas deixa que eu te diga, homem temente
Sentado na cadeira de balanço
Eu que moro no abismo, eu que conheço
O interior da entranha das mulheres
Eu que me deito à noite com os cadáveres
E liberto as auroras do meu peito:
Teu filho não morreu! a fé te salva
Para a contemplação da sua face
Hoje tornada a pequenina estrela
Da tarde, a jovem árvore que cresce
Em tua mão: teu filho não morreu!
Uma eterna criança está nascendo
Da esperança de um mundo em liberdade.
Serão teus filhos, todos, homem justo
Iguais ao filho teu; tira a gravata
Limpa a unha suja, erguete,
faz a barba
Vai consolar tua mulher que chora...
E que a cadeira de balanço fique
Na sala, agora viva, balançando
O balanço final do filho morto.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Variação sobre um soneto de Shakespeare - Vinicius de Moraes

És como um dia cálido de estio...
Azul? Não, és mais linda e mais amena
O verão como tudo traz o frio
E o verão é inconstante, e tu serena.
Tu não trazes o frio, nem a pena
Da luz foste tu
vives, como um rio
Que cantasse uma mesma cantilena
Num sempre novo manso desvario.
Não morre o estio em ti e
no teu rosto Ele deixou as cores da manhã E as
(tristezas suaves do solposto.
Sem as marcas cruéis da noite vã. E a morte que em ser também se deita Em
(tua alma descansa satisfeita.)

Vinicius de Moraes

Místico - Vinicius de Moraes



O ar está cheio de murmúrios misteriosos
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização…
Tudo está cheio de ruídos sonolentos
Que vêm do céu, que vêm do chão
E que esmagam o infinito do meu desespero.
Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre
Eu sinto a luz desesperadamente
Bater no fosco da bruma que a suspende.
As grandes nuvens brancas e paradas –
Suspensas e paradas
Como aves solícitas de luz –
Ritmam interiormente o movimento da luz:
Dão ao lago do céu
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo.
No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto
Há todo um amor à divindade.
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto
Há todo um amor ao mundo.
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto
Há toda uma compreensão.
Almas que povoais o caminho de luz
Que, longas, passeais nas noites lindas
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz
O que buscais, almas irmãs da minha?
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase?
Vedes alguma coisa
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão?
Sentis alguma coisa
Que eu não sinta talvez?
Por que as vossas mãos de nuvem e névoa
Se espalmam na suprema adoração?
É o castigo, talvez?

Eu já de há muito tempo vos espio
Na vossa estranha caminhada.
Como quisera estar entre o vosso cortejo
Para viver entre vós a minha vida humana...
Talvez, unido a vós, solto por entre vós
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...
Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas
Porque eu também estou acorrentado
E nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio.
Eu estou acorrentado à noite murmurosa
E não me libertais...
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.
Eu sei que ela já tem o seu lugar
Bem junto ao trono da divindade
Para a verdadeira adoração.
Tem o lugar dos escolhidos
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.
Rio de Janeiro, 1933