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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Forse un mattino - Eugenio Montale


Forse un mattino

Forse un mattino andando in un'aria di vetro,
arida, rivolgendomi, vedrò compirsi il miracolo:
il nulla alle mie spalle, il vuoto dietro
di me, con un terrore di ubriaco.

Poi come s'uno schermo, s'accamperanno di gitto
alberi case colli per l'inganno consueto.
Ma sarà troppo tardi; ed io me n'andrò zitto
tra gli uomini che non si voltano, col mio segreto.

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Talvez uma manhã

Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
árida, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim o vazio
com um terror de bêbedo.

Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde; e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.

In Limine - Eugenio Montale

Goza se o vento que entra no pomar
volta a bater com a onda da vida
aqui onde afunda um morto
enredo de memorias,

O que sentes ruflar não é vôo,
mas comoçõ do regaço eterno;
vês como se transforma esta fimbria
de terra solitária num crisol.

São brenhas neste lado do birio muro.
se prossegues, deparas,
talvez com o fantasma que te salva:
compõem-se aqui as histórias, os atos
apagados para o jogo do futuro.

Procura a malha aberta nessa rede
estreita, salta e foge, vai embora!
Roguei por ti, - agora minha sede
há de ser branda, menos acre e ressaibo...
...

Ho sceso milioni di scale - Eugenio Montale


Ho sceso, dandoti il braccio, almeno un milione di scale
e ora che non ci sei è il vuoto ad ogni gradino.
Anche così è stato breve il nostro lungo viaggio.
Il mio dura tuttora, né più mi occorrono
le coincidenze, le prenotazioni,
le trappole, gli scorni di chi crede
che la realtà sia quella che si vede.

Ho sceso milioni di scale dandoti il braccio
non già perché con quattr'occhi forse si vede di più.
Con te le ho scese perché sapevo che di noi due
le sole vere pupille, sebbene tanto offuscate,
erano le tue.

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Desci um milhão de escadas

Desci, dando-te o braço, ao menos um milhão de escadas
e agora que aqui não estás é o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve nossa longa viagem.
A minha dura ainda, mas já não me ocorre pensar
nas conexões, nas reservas,
nas ciladas, nos vexames dos que crêem
que a realidade é aquilo que se vê.

Desci milhões de escadas dando-te o braço
e não porque com quatro olhos talvez se veja melhor.
Contigo as desci porque sabia que de nós dois
as únicas verdadeiras pupilas, ainda que tão ofuscadas,
eram as tuas.

(tradução Equipa "O Ponto de Encontro")

domingo, 22 de março de 2009

Libri Ossi di Sepia - Eugenio Montale


IN LIMINE

Godi se il vento ch'entra nel pomario
vi rimena l'ondata della vita:
qui dove affonda un morto
viluppo di memorie,
orto non era, ma reliquiario.

Il frullo che tu senti non è un volo,
ma il commuoversi dell'eterno grembo;
vedi che si trasforma questo lembo
di terra solitario in un crogiuolo.

Un rovello è di qua dall'erto muro.
Se procedi t'imbatti
tu forse nel fantasma che ti salva:
si compongono qui le storie, gli atti
scancellati pel giuoco del futuro.

Cerca una maglia rotta nella rete
che ci stringe, tu balza fuori, fuggi!
Va, per te l'ho pregato,— ora la sete
mi sarà lieve, meno acre la ruggine…

Leia Mais... Libri in Italiano

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...

sábado, 21 de março de 2009

AudioLibri - Poesie - Eugenio Montale (23 poesie)

Faixas:
  • Montale Eugenio - Casa sul mare
  • Montale Eugenio - Cigola la carrucola del pozzo
  • Montale Eugenio - Da Xenia
  • Montale Eugenio - Dicono che la mia
  • Montale Eugenio - Forse un mattino andando in un'aria di vetro
  • Montale Eugenio - Ho sceso, dandoti il braccio, almeno un milione di scale
  • Montale Eugenio - I limoni
  • Montale Eugenio - Il pirla
  • Montale Eugenio - Il rondone
  • Montale Eugenio - Il sogno del prigioniero
  • Montale Eugenio - In limite
  • Montale Eugenio - La casa dei doganieri
  • Montale Eugenio - L'anguilla
  • Montale Eugenio - Lo sai, debbo riperderti e non posso
  • Montale Eugenio - Lungomare
  • Montale Eugenio - Meriggiare pallido e assorto
  • Montale Eugenio - Mia vita
  • Montale Eugenio - Non chiederci la parola che squadri da ogni lato
  • Montale Eugenio - Non recidere forbice quel volto
  • Montale Eugenio - Serenata indiana
  • Montale Eugenio - Spesso il male di vivere
  • Montale Eugenio - Su una lettera non scritta
  • Montale Eugenio - Ti libero la fronte dai ghiaccioli

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terça-feira, 17 de março de 2009

Solidão - Eugenio Montale


Se me afasto dois dias
os pombos que bicam
na minha sacada
começam a se agitar
seguindo as instruções corporativas.
Ao meu regresso a ordem se refaz
com suplemento de migalhas
e para desapontamento do melro que faz a naveta
entre o respeitado vizinho de frente e eu.
A tão pouco se reduziu minha família.
E há quem tenha uma ou duas, que esbanjamento meu Deus!

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)
.

Fim de 68 - Eugenio Montale


FIM DE 68

Contemplei da lua, ou quase,
o modesto planeta que contém
filosofia, teologia, política,
pornografia, literatura, ciências
exatas ou arcanas. Nele há mesmo o homem,
e eu entre eles. E tudo ë muito estranho.

Dentro de poucas horas será noite e o ano
terminará entre explosões de espumantes
e fogos de artifício. Talvez de bombas e coisas piores,
mas não aqui onde estou. Se alguém morre
ninguém se importa desde que seja
desconhecido e longe.

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

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Cá e Lá - Eugenio Montale


Há tempos estamos ensaiando a peça
mas a desgraça é que não somos sempre os mesmos.
Muitos já morreram, outros trocam de sexo,
mudam barba rosto língua ou idade.
Há anos preparamos (há séculos) os papéis,
as tiradas principais ou apenas
"a mesa está posta" e nada mais.
Há milênios esperamos que alguém
nos aclame no palco com palmas
ou até com assobios, não importa,
desde que nos reconforte um nous sommes là.
Infelizmente não falamos francês e assim
ficamos sempre no cá e jamais no lá.

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

O Sabiá - Eugenio Montale


O sabiá canta na terra, não sobre as árvores,
assim disse uma vez um poeta sem asas,
e antecipou o fim de toda vida vegetal.
Existe além disso quem não canta nem sobre nem sob
e ignoro se é pássaro ou homem ou outro animal.
Existe, ou existia talvez, hoje está reduzido
a nada ou quase nada. E já é muito pelo que vale.

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)
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DEPOIS DA CHUVA

Sobre a areia molhada surgem ideogramas
de pés de galinha. Olho para trás
mas não vejo nem santuário nem asilo de aves.
Terá passado um ganso cansado, ou talvez manco.
Não saberia decifrar aquela linguagem
ainda que fosse chinês. Uma simples aragem
a apagará. Não é verdade
que a Natureza seja muda. Fala ao deus-dará
e a única esperança é que não se ocupe
muito da gente.

(tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti)

Saiba um Pouco sobre Eugenio Montale


Sem título

Eugenio Montale


Um dia não muito longe
assistiremos à colisão
dos planetas e o céu diamantado
acabará submerso em escombros.
Então colheremos flores rutilantes
e estrelas de néon.
Olha, eis o sinal, um fogo
acende-se no céu, chocam-se
Júpiter e Órion e no terrível
estampido onde acabou o homem?
Certo que basta um sopro neste mundo
em que vivemos para que ele acabe.
Ficará talvez um grito, o da
terra que não quer perecer.

Eugenio Montale nasceu em Genova, Itália, em 12 de outubro de 1896. No início de sua vida deixou os estudos normais para se dedicar ao canto. A morte de seu professor, o barítono Ernesto Sivori, na primeira guerra mundial, fez com que o autor se voltasse para a literatura. Tornou-se, assim, um grande mestre da literatura italiana da segunda metade do século XX. Em 1925, publicou sua primeira coletânea de Poesias, "Ossi di seppia", que logo tornou-se um dos clássicos da poesia italiana contemporânea. "Le occasioni" foi publicado em 1939. Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1943, publicou "Finisterre", uma coleção que, posteriormente, constituiu-se uma referencia para "La bufera e altro", publicado em 1956. "La farfalla di Dinard" teve seu lançamento em 1956 com 96 paginas. As edições seguintes foram acrescidas de novos poemas até alcançar, na de 1960, 273 poemas.

Foi agraciado, em 1961 com a Láurea de Honra pela Universidade de Roma e, logo depois, pelas Universidades de Milão, Cambridge, e Basiléia. Em 1967 o Presidente da República Italiana, Giuseppe Saragat, nomeou-o Senador vitalício em reconhecimento de suas realizações nos campos literário e artístico. Seus livros, tanto prosa quanto poesia, confirmaram a vitalidade do escritor: "Auto da fé" (1966 e 1972), "Fuori di casa" (1969 e 1975) e "Quaderno di traduzioni" (1948 e 1975). Eles dão uma idéia da vastidão de interesses e de versatilidade de seu talento, mais tarde confirmado com a obra "La bufera e altro" (1970). Em 1971, publicou sua quarta coletânea de poesias, "Satura", que logo tornou-se um grande sucesso editorial. Em 1973, publicou "Diario 1971-1972", que contém seus mais recentes poemas líricos. Em 1975, foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.

No Brasil, seus trabalhos foram publicados pela editora Record ("Poesias" e "Diário Póstumo"), com tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti, e "Ossos de Sépia", tradução de Renato Xavier, pela Cia. das Letras.

Eugenio Montale faleceu no dia 12 de setembro de 1981.

O poema acima foi publicado na revista "Palavra", Editora da Palavra - Belo Horizonte (MG), ano 1, nº 7, Outubro/1999, tradução de Ivo Barroso.

terça-feira, 10 de março de 2009

Ventos e Bandeiras - Eugenio Montale,


A ventania que alçou o amargo aroma
do mar às espirais dos vales,
e te assaltou, desgrenhou teu cabelo,
novelo breve contra o pálido céu;

a rajada que colou teu vestido
e rápida te modulou à sua imagem,
como voltou, tu longe, a estas pedras
que o monte estende sobre o abismo;

e como passada a embriagada fúria
retoma agora ao jardim o hálito submisso
que te ninou, estirada na rede,
entre as árvores, nos teus vôos sem asas.

Ai de mim! O tempo nunca arranja duas vezes
de igual maneira suas contas! E é esta a
nossa sorte: de outra maneira, como na natureza,
nossa história se abrasaria num relâmpago.

Surto sem igual, — e que agora traz vida
a um povoado que exposto
ao olhar na encosta de um morro
se paramenta de galas e bandeiras.

O mundo existe... Um espanto pára
o coração que sucumbe aos espíritos errantes,
mensageiros da noite: e não pode acreditar
que homens famintos possam ter sua festa.

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)
...

Os Limões - Eugenio Montale


Escuta-me, os poetas laureados
circulam apenas entre plantas
de nomes pouco usados: buxeiros alienas ou acantos.
Eu, por mim, prefiro os caminhos que levam às valas
cheias de mato onde em lamaçais
já meio secos meninos apanham
alguma esquálida enguia:
as trilhas que bordejam os taludes descem por entre os tufos de caniços
e se metem nas hortas, entre os pés de limão.

Tanto melhor se a algazarra dos pássaros
se dissipa engolida pelo azul:
mais claro se escuta o sussurro
dos galhos amigos no ar que mal se move,
e as sensações deste cheiro
que não se larga da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta.
Aqui se cala por milagre
a guerra das desencontradas paixões,
aqui até a nós, os pobres, toca uma parcela de riqueza
e é o cheiro dos limões.

Vê, neste silêncio no qual as coisas
se entregam e parecem prestes
a trair o seu último segredo,
às vezes esperamos
descobrir um defeito da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não prende,
o fio a desenredar que enfim nos leve
ao centro de uma verdade.
O olhar perscruta em volta,
a mente indaga concerta desune
em meio ao perfume que se espalha
enquanto o dia enlanguesce.
São os silêncios em que se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma Divindade surpreendida.

Mas a ilusão se desfaz e o tempo nos devolve
à cidade ruidosa onde o azul mostra-se
apenas por retalhos, no alto, entre as cimalhas.
Castiga a chuva a terra, então; se espessa
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz torna-se avara — a alma, amarga.
Quando um dia de um portão malfechado
entre as árvores de um pátio
nos surge o amarelo dos limões;
e no coração o gelo se dissolve,
e no peito estalam
suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Ossos de Siba - Eugenio Montale


OSSOS DE SIBA

Não busques abrigo na sombra
desse bosque de verdura
qual o falcão que mergulha
como um raio na canícula.

É hora de deixar quieto
o caniçal sonolento
e de observar as formas
da vida que se esboroa

Caminhamos numa poeira
de madrepérola vibrante,
num ofuscamento pegajoso
que quase nos desfibra.

No entanto, tu o sentes, mesmo na onda árida
que lassidão nos traz neste instante de enfado
não é hora ainda de lançar num abismo
nossas vidas errantes.

Como este claustro de rochas
que parece desfiar-se
em teias de nuvens;
assim nossas almas ressequidas

onde a ilusão mantém aceso
um fogo mais de cinzas
se entregam à serenidade
de uma certeza: da luz.

Repenso o teu sorriso e é para mim como uma água límpida
retida por acaso entre as pedras de um rio,
exíguo espelho onde contemplas uma hera e seus corimbos;
e tudo sob o abraço de um branco céu tranqüilo.

Esta é a minha lembrança; não sei dizer, faz tanto tempo,
se de teu rosto surge livre uma alma ingênua,
ou se em verdade és dos errantes que o mal do mundo exaure
e o sofrimento carregam como um talismã.

Mas posso dizer-te isto, que teu rosto recordado
afoga a mágoa inconstante numa onda de calma,
e que tua figura se insinua em minha memória nevoenta
imaculada como a copa de uma jovem palmeira...

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

Madrigais Privados - Eugenio Montale


Deste meu nome a uma árvore? Não é pouca coisa;
embora não me resigne a ficar apenas sombra, ou tronco,
abandonado num subúrbio. Eu o teu
dei a um rio, a um longo incêndio, à minha sorte
cruel, à confiança
sobre-humana com que falaste ao sapo
que saiu do esgoto, sem horror ou pena
ou exaltação, ao alento daquele poderoso
e suave lábio teu que consegue,
nomeando, criar: sapo flores relva rocha —
carvalho pronto a desfraldar-se sobre nós
quando a chuva dispersa o pólen das carnosas
pétalas de trevo e a chama se levanta.

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)